Comunidade médica reage às declarações de Bolsonaro sobre coronavírus

Vários setores da comunidade médica também reagiram às declarações do presidente Jair Bolsonaro, que criticou o isolamento social por causa do coronavírus.

“O vírus é como areia fina no vento, ele vai para tudo quanto é lado. Se você está num campo de futebol e vêm mil bolas na sua direção, não dá para você escapar. Você tem que sair do campo para ganhar o jogo”. Foi assim que o presidente da Academia Nacional de Medicina, Rubens Belfort, ilustrou como se dá a transmissão do novo coronavírus: “A proximidade física é péssima. Tem que se afastar, tem que se isolar”.

O pronunciamento do presidente Bolsonaro gerou reações em toda a comunidade médica. Sociedades, associações, hospitais que seguem e representam tudo que existe de mais novo no controle da pandemia temem que a população seja estimulada a sair de casa. Os médicos explicam que precisamos de mais tempo para entender o comportamento do vírus no Brasil e que mudar de estratégia agora colocaria em risco o sistema de saúde do país e muitas vidas de brasileiros.

O Conselho Federal de Medicina alerta para o fato de que o país está enfrentando o início da epidemia e que o pior ainda está por vir, levando-se em conta que o gráfico epidemiológico, que indica que grande número de pessoas serão infectado e poderão morrer em função da doença. Todos - Governo Federal, governadores e Congresso Nacional - devem superar aspectos políticos e adotar as orientações do Ministério da Saúde, cuja conduta tem sido irrepreensível, na definição de estratégias e ações para enfrentar essa pandemia.

 

"Hoje eu já, aqui mesmo, recebi a informação de que, nos transportes públicos, já tinha um monte de pessoas de idade circulando. Porque qual é o entendimento? Ah, não tem nenhum problema. Como não tem nenhum problema? As UTIs tão cheias, absolutamente lotadas. Isso não é suficiente pra mostrar o impacto? Qual é o objetivo de fazer a quarentena? Reduzir, achatar essa curva, pra que a gente possa ter um tempo pra respirar, pra atender todos de maneira adequada", fala Jamal Suleiman, infectologista do Hospital Emílio Ribas.

A Sociedade Brasileira de Infectologia ficou preocupada com a afirmação do presidente contra o fechamento de escolas e também a ele se referir a essa nova doença infecciosa como um "resfriadinho".

"Certamente do ponto de vista médico, científico, a gente não pode comparar a Covid com o resfriado. O resfriado, esse sim, é uma infecção de modo geral de baixíssima letalidade, mas esse novo coronavírus tem uma letalidade que gira em torno de 3% a 6%, principalmente na ideia geral. Quando nós pegamos a faixa dos pacientes com 80 anos ou mais, essa letalidade chega de 15 a 20%. E porque também é importante fechar as escolas nesta situação que você começa a ter transmissão comunitária, porque é o neto que vai transmitir o vírus pro vô. Então, pro neto, essa doença, a Covid-19, vai ser uma doença leve, mas para o seu vô ou para a sua avó pode ser fatal", explica o presidente da sociedade, Clóvis Arns da Cunha.

E esse é o ponto também pra Sociedade Brasileira de Pediatria que reafirma que "apesar da maior letalidade ser entre os idosos com mais de 60 anos, não se pode ignorar que os mais jovens, inclusive crianças e adolescentes, podem ser afetados pela Covid e se tornarem, involuntariamente, agentes de infecção, se não foram tomadas medidas preventivas".

 

"As evidências científicas claramente nos apontam neste momento que é importante a manutenção dessas medidas restritivas para contingenciamento do número de casos e pra não expor nossa população nesses locais a um colapso do sistema de saúde", destaca o médico Marco Aurélio Safadi.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia declarou que "qualquer decisão que abrande o isolamento da população, que não considere orientações epidemiológicas e sanitárias, será extremante prejudicial para o combate ao coronavírus em todo o Brasil".

A Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea divulgou nota em que afirma: "reiteramos que todos aqueles que podem manter-se em isolamento devem fazê-lo, pois estão colaborando para proteger as vidas dos nossos idosos que temos em nosso país e, também, das crianças, jovens e adultos que, neste momento, estão em tratamento hematológico, oncológico e oncohematológico, bem como aquelas que aguardam por um transplante de medula óssea ou foram recentemente transplantadas".

"Somos favoráveis ao isolamento responsável das pessoas. Somos favoráveis também a não interrupção dos tratamentos oncológicos, em prejuízo aos pacientes. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica apoia qualquer medida de preservação à vida", diz o presidente Alexandre Oliveira.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira, que representa os profissionais intensivistas que estão à beira de leito na assistência dos casos graves de coronavírus, diz que a única alternativa para evitar o colapso do sistema hospitalar, possibilitando a assistência para quem dela necessitar, é o isolamento social e esta é a nossa recomendação para este momento. E alerta: "uma grande parte de nossos leitos de UTI já está sendo consumido com esses pacientes e muitos deles têm idade inferior a 60 anos".

É o que indica a experiencia do médico Álvaro Furtado Costa, da linha de frente do maior complexo hospitalar da América Latina, o Hospital das Clínicas: "A gente está vendo paciente grave, sim, que não está dentro dos grupos de risco clássicos. Claro que é minoria desses pacientes. Então, cuidado com essa informação de que a doença não traz quadro de gravidade pras populações mais jovens, porque isso de uma certa forma desestimula que o jovem obedeça as recomendações de restrição e eles podem, sim, ser afetados com a doença. Claro que numa magnitude menor que os idosos, mas toda problemática de você minimizar uma doença que é grave e que pode sim ter impacto em outras faixas etárias".

 

O Conselho Nacional de Saúde, uma instância colegiada do SUS, "considera criminoso o pronunciamento de Bolsonaro sobre a pandemia do vírus". Que é "uma afronta grave à saúde e à vida da população". E "prejudica todo o esforço nacional para que o Sistema Único de Ssaúde (sus) não entre em colapso diante do cenário emergencial que vivemos na atualidade."

"É inaceitável nesse instante que venha a maior liderança do país dizer à população que não se preocupe com as orientações do Ministério da Saúde. Não tem sentido isso", afirma Marcos Machado, presidente do Conselho Regional de Farmácia de SP.

Para a Abrasco - Associação Brasileira de Saúde Coletiva - o presidente é um "inimigo da saúde do povo". Em nota, afirma que "as entidades de saúde coletiva e da bioética consideram intolerável e irresponsável o 'discurso da morte' feito pelo presidente da república. O presidente 'nega o conjunto de evidências científicas que vem pautando o combate à pandemia da Covid-19 em todo o mundo, desvalorizando o trabalho sério e dedicado de toda uma rede nacional e mundial de cientistas e desenvolvedores de tecnologias em Saúde'".

"Ele vai contra tudo o que tem sido falado pela ciência, pelos especialistas em termos de saúde. Ele chegou a ser desrespeitoso com a própria população", diz a especialista em Saúde Pública, Yeda Duarte.

Não é questão de opinião, é ciência, explicam os médicos. "Continua valendo a recomendação de que toda a população e não só os idosos permaneçam em casa, que as escolas não tenham aulas e que os serviços não-essenciais continuem sem operar. Mesmo que isso represente um problema econômico grave. É preciso lembrar que mais importante que o dinheiro que deixa de ser ganho é a vida que deve ser salva", destaca Glaydson Godinho, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

 
Rate this item
(0 votes)

Deixe um comentário em nosso mural

Certifique-se de inserir todas as informações necessárias, indicadas por um asterisco (*). Código HTML não é permitido.